26 de abril de 2008

Drogas? Visite nossa drogaria.

Abrindo a caixa de meu e-mail, dentre tantas, deparei-me com uma mensagem do Professor Ivano. Lendo o corpo da mensagem descobri que a mesma havia sido enviada pelo Prof. Argemiro Pina. Transcrevo na íntegra o texto de Marcelo Coelho.
Drogas? Visite nossa drogaria

Vivemos esmagados por uma máquina de acumulação que atua também dentro de nós ávidos, como sempre, por novas formas de experiência, e mais do que nunca atento à aventura de viver, este articulista comunica, a quem interessar possa, que se tornou proprietário de uma escova de dentes movida a pilha, que é de fácil manuseio e tem durabilidade indeterminada. No começo, essas escovas custavam meio caro. Em menos de um ano, creio eu, tornaram-se baratíssimas, e são daqueles objetos que se penduram perto dos caixas da farmácia para fisgar o consumidor, à espera do comportamento costumeiramente chamado pelos marqueteiros de "compra impulsiva". Não foi o meu caso. Gosto de resistir a superficialidades. Acontece que, freqüentador obstinado de farmácias e drogarias" (qual a diferença, afinal?), acumulei certa pontuação num desses programas de fidelidade ao consumidor. Pontuação baixa, para dizer a verdade. Mas, depois de já ter sido contemplado com uma sanduicheira elétrica e um aparelho para medir pressão, e sem interesse por estojos de primeiros socorros e livros de receitas, restavam-me poucas alternativas de premiação.À escova, portanto. Foi bem-sucedido o primeiro teste. Comecei movendo o aparelho como se fosse uma escova de dentes comum, mas percebi que o segredo reside em mantê-lo imóvel por bastante tempo em cada, digamos, "área de operação", agindo por meio de deslocamentos não mais contínuos, e sim seqüenciais" ao longo da minha perplexa arcada dentária. O ganho, não serei vaidoso se o disser, foi visível. O que era uma tosca faxina aquática dos dentes tornou-se polimento pontual e científico. Passo da vassoura e do esfregão para a era da enceradeira elétrica.Tornei-me, além disso, meu próprio dentista; o ruído sempre desagradável daquele motorzinho do consultório agora já faz parte do meu cotidiano. A escova faz todo tipo de barulho, variando conforme a zona de incidência; vibra entre meus dedos, oscilando de modo paradoxal entre a ascese e a pornografia.Já sei que vai acontecer com a escova elétrica aquilo que todo usuário de computador ou dono de carro com direção hidráulica conhece bem.

Confortos antes inexistentes tornam-se bens de primeira necessidade, ninguém se conformará em voltar ao passado, e qualquer dia desses estarei pegando o carro, de noite, numa emergência, para comprar pilhas ou cerdas novas para o aparelho de que nunca precisei.

Ah, sim, é por isso que a escova ficou barata. É como nas impressoras a jato de tinta e nos aparelhos de barba com três lâminas paralelas: o lucro não vem da máquina, mas do refil. Não é um pouco o que fazem os traficantes? Pelo menos é o que se diz: as primeiras doses vêm de graça, o famoso pipoqueiro da porta do colégio as oferece como um brinde, até instalar-se a dependência química e psicológica no consumidor. A dependência, aliás, já vinha de antes, no meu caso pelo menos. Foi graças à minha fidelidade à drogaria que acumulei os pontos necessários para o brinde. "Parabéns! Você se tornou mais um escovadito de nosso programa de estímulo à saúde bucal da população. " É a rede de farmácias Droga Leve cumprindo mais uma vez seu papel de empresa cidadã.

Exagero um pouco, sem dúvida, mas é mais ou menos desse modo que o consumo se torna conquista pessoal e o lucro, filantropia.Depois a gente estranha quando campanhas de outro tipo não dão certo. Refiro-me a todos os esforços pensados no sentido de prevenir a obesidade, preservar a natureza, reduzir o consumo de carbono, álcool ou cocaína. É que todas essas campanhas, para azar do planeta e de todos nós, precisam alertar para a necessidade do "menos", numa sociedade programada o tempo inteiro para o "mais". Vivemos esmagados por uma máquina de acumulação constante; o pior é que ela também funciona dentro de nós.

Não sou completamente pessimista. Logo se inventarão novos produtos despoluidores, novas drogas contra drogas, que talvez evitem o desconforto de diminuir o ritmo de nossas próprias necessidades. Em vez de bicicletas (quem se aventuraria a usá-las em São Paulo?), um anel gravitacional de filtros solares flutuando na estratosfera. Chama-se a isso progresso.

Quem sabe, afinal, se minha escova de dentes movida a pilha não economiza a água do planeta? Espero que, pelo menos, economize a conta do dentista.

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