2 de julho de 2008

Vamos alimentar nossas esperanças?

“A planetaridade deve levar-nos a sentir e viver nossa cotidianidade em conexão com o universo e em relação harmônica consigo, com os outros seres do planeta e com a natureza, considerando seus elementos e dinâmica. Trata-se de uma opção de vida por uma relação saudável e equilibrada com o contexto, consigo mesmo, com os outros, com o ambiente mais próximo e com os demais ambientes.”

Esse texto do Flávio Boleiz Júnior da Faculdade de Educação - USP foi-me indicado pela amiga e professora Anete Maria. É uma reflexão que cabe direitinho como proposta de prática ecopedagógica.

Os tempos apresentam-se trevosos. Globalização capitalista que acentua a dominação, exploração e manipulação por parte dos poderosos. Xenofobia explícita em algumas regiões do Globo e dissimulada em outras aparentemente mais democráticas. Desequilíbrio econômico generalizado, gerado pelas especulações de investidores que visam enriquecer a qualquer custo. Guerras localizadas levando sofrimento e crueldade a vários pontos de todos os continentes. Reações terroristas gerando medo e insegurança em toda parte. Domínio generalizado de um ideal consumista que, descontroladamente, gera a destruição progressiva dos recursos naturais. Exclusão social das minorias com desprezo a seus ideais e às suas necessidades e dignidade.

São tantos problemas vivos no mundo que nos rodeia que, muitas vezes, não conseguimos sequer vislumbrar uma pontinha de luz no fim do túnel sem pensarmos num trem vindo na contramão!

Como é difícil assumir uma postura de esperança diante disso tudo... Que difícil imaginar um raio de sol quando se está sob uma carga de nuvens tão pesadas, negras, carregadas!

Mas não podemos nos esquecer de que a postura que se assume ao se escolher a profissão de educador não pode de forma alguma ser pessimista. Não. O educador tem que ser alguém que ame a sua condição humana e, por conseguinte, as novas gerações e por extensão, toda a humanidade.

Diante desse quadro que se apresente à nossa realidade atual, como é que se exerce essa função de educador como sujeito amante da condição humana? Como se deve agir quando se deseja estar engajado na busca de uma transformação mundial que garanta às novas gerações, e a toda humanidade, melhores condições de vida, de igualdade, de justiça, de inclusão e inserção social; em uma palavra, um mundo melhor?

Buscando respostas a essas perguntas tão pertinentes a todos os tempos – tão presentes nas entrelinhas dos diálogos de Sócrates retratados por Platão há mais de dois mil e quatrocentos anos, por exemplo – e tão latentes em nosso momento presente, não podemos deixar de pensar, refletir, na questão dos valores de vida que a ideologia dominante vem disseminando de forma, digamos assim, antropofágica; pois que as relações de poder tal como se apresentam em nossa conjuntura atual, legitimam mais e mais a cada dia a expressão latina que afirma: “hominus lopus homini”. O ser humano apresenta-se a seu semelhante como o mais temível e terrível de todos os predadores da natureza e de sua própria espécie.

Cumpre buscarmos formas de reverter essa situação, de inverter esses valores, de construirmos a re-humanização da espécie humana.

Para tanto, urge a valorização de questões e paradigmas voltados para o estabelecimento de uma sustentabilidade mundial da Terra e de cada um dos entes que a habitam, pautada no equilíbrio, na inserção social, na paz e na liberdade para todos e para o todo.

Nessa direção dos pensamentos, mercê se faz iniciar-se uma reflexão acerca de nossas próprias atitudes em nosso cotidiano familiar, em nossa prática profissional e em nossa concepção de um conceito tão desgastado e ao mesmo tempo tão atual e necessário que o de cidadania. Mas não uma cidadania regionalista ou nacionalista, e sim uma cidadania comprometida com cada ser humano vivente – e por viver – em nosso Planeta. Uma cidadania planetária.

Vários autores –e inclusive a Carta da Ecopedagogia – têm-se referido à Terra como um organismo vivo, que age e interage em consonância com estímulos que recebe de todo seu entorno universal – estímulos que vêm de fora – e estímulos que recebe de sua própria superfície, como conseqüência das ações levadas a cabo por seus habitantes. Se não há muito o que fazer quanto aos estímulos externos, grande é a quantidade de ações que se pode implementar desde já no que diz respeito aos estímulos que os homens têm aplicado ao nosso Planeta.

Parece constituir-se senso comum que ao falar-se em sustentabilidade e preservação ambiental, remete-se o pensamento às ações que os governos, as grandes empresas, grandes organizações não governamentais; podem e devem implementar como formas de combate à poluição, à destruição e degradação do mundo. De fato essas ações são importantes e necessárias, mas não bastam em si mesmas.

A consciência planetária deve supor o respeito pelo semelhante, independentemente de quem ele seja e de onde ele esteja.

Uma tomada consciente de postura deve permear todas as ações de nosso dia-a-dia, desde as mais simples até as mais complexas. Ações que vão do banho mais rápido como forma de preservação de água e energia, até o engajamento em projetos de luta pela igualdade e a inclusão social das minorias de nossa sociedade próxima e/ou global.

“Experiências cotidianas aparentemente insignificantes, como uma corrente de ar, um sopro de respiração, a água da manhã na face, fundamentam as relações consigo mesmo e com o mundo. A tomada de consciência dessa realidade é profundamente formadora. O meio ambiente forma tanto quanto ele é formado ou deformado. Precisamos de uma ecoformação para recuperarmos a consciência dessas experiências cotidianas. Na ânsia de dominar o mundo, elas correm o risco de desaparecer do nosso campo de consciência, se a relação que nos liga a ele for apenas uma relação de uso.” (Idem, item 8)

Para quem é educador, principalmente, a formação de cidadãos planetários deve ser uma preocupação constante, meio que natural, em cada atividade da sala de aula. Uma formação que transcenda a teoria, o discurso do professor, e se materialize nos seus exemplos diante dos educandos.

Historicamente o “establishiment” doutrina os homens de modo a buscarem defender os bens da família e da pátria como virtude primordial no exercício da cidadania. Uma visão planetária por parte do educador deveria apresentar aos seus alunos a Terra como pátria e a humanidade toda como grande família global com interesses em comum. Distantes, mas iguais, apesar das diferenças e peculiaridades de cada povo, de cada comunidade. E quais são esses interesses da humanidade como um todo senão – pelo menos inicialmente – aqueles enunciados na Declaração Universal dos Direitos do Homem? De todos os homens?

Parece que se o trabalho do educador se pautar nesse interesse universal da humanidade sem perder de vista o meio local onde está inseridos, já estar-se-á iniciando um trabalho fundamentado naquela Pedagogia comprometida com a esperança que tanto buscamos de um mundo melhor. Uma Pedagogia preocupada, voltada para o equilíbrio do homem no ambiente onde vive, com seu semelhante, com a Terra e todas as espécies que a habitam; comprometida com um bem estar sócio-cósmico. Uma Ecopedagogia.

Filosoficamente comprometida com todas as causas sociais que buscam a igualdade e eqüidade humana no planeta como um todo inteligente, a Ecopedagogia oferece ao homem a possibilidade de uma mudança radical de mentalidade em relação à qualidade de vida e ao meio ambiente.

Na Carta da Ecopedagogia, lemos:

“A planetaridade deve levar-nos a sentir e viver nossa cotidianidade em conexão com o universo e em relação harmônica consigo, com os outros seres do planeta e com a natureza, considerando seus elementos e dinâmica. Trata-se de uma opção de vida por uma relação saudável e equilibrada com o contexto, consigo mesmo, com os outros, com o ambiente mais próximo e com os demais ambientes.” (Item 4)

Mais que simplesmente pretender levantar questões sobre o grande tema da sustentabilidade, é necessário apresentar-se um caminho de reflexões que norteiem didática e pedagogicamente o trabalho de todos os educadores e de todos os homens identificados com esses ideais, em busca da “formação de cidadãos com consciência local e planetária que valorizem a autodeterminação dos povos e a soberania das nações”. (Item 6)

Se a escola é legitimamente a instituição social responsável pela socialização das novas gerações e pela produção e reprodução dos saberes necessários a esse processo socializador, em seu seio devem-se sedimentar as bases de um conhecimento comprometido com a qualidade de vida dos sujeitos sociais, pautadas na convivência harmoniosa de todas as diferenças que propõem aquilo a que estamos nos referindo como cidadania planetária.

O conceito de cidadania em si, deriva de outro conceito importante para sua própria apreensão, que é o de “polis” – πολις, em grego: cidade.

Os gregos antigos tinham muito clara a importância de uma convivência coletiva pautada na harmonia como garantia da sobrevivência da cidade. Tinham na πολις o lugar onde sua identidade era reconhecida e respeitada. Os deveres e direitos eram amplamente discutidos e o senso de democracia pairava acima de todas as questões individuais. A condição de cidadão se realizava plenamente no seu relacionamento social e as condições básicas para o exercício dessa condição eram a naturalidade – o sujeito deveria ser “natural” da πολις, ter nascido na πολις –; e a liberdade – já que o cidadão não podia se escravo, devia ser homem livre.

O ideal que se busca ao se plantear uma cidadania planetária vai ao encontro dessa vivência plena da identidade dos sujeitos sociais. A πολις aqui é o planeta como um todo. A aplicação universalista que se deseja atribuir a esse conceito de cidadania busca a igualdade entre todos os homens e não aceita que apenas alguns sejam cidadãos. Todos são naturais da grande cidade Terra e são inaceitáveis a escravidão e a subserviência em qualquer circunstância.

A Ecopedagogia não objetiva massificar e mundializar uma determinada cultura, um determinado molde onde todos devam se encaixar para viver. Antes pretende oferecer subsídios para ações educativas que respeitem a cultura local ao mesmo tempo em que não exclua, enquanto valor, a cultura de todos aqueles que sejam ‘diferentes’; que respeitem, tolerem e se harmonizem com o diverso. A sustentabilidade da vida no planeta clama por atitudes dessa monta: atitudes que militem efetivamente em direção, em defesa, da inclusão social e nas lutas contra a exclusão.

Trabalhando-se consciente de que se pode semear na atividade educativa a construção de uma nova ordem mundial, aprendendo-se e apreendendo-se uma visão planetária de mundo, assumindo-se para a própria vida uma filosofia voltada para essa consciência holística e mundializadora da cidadania; estar-se-á implementando valores básicos no desempenho das funções docentes que se dêem em consonância com a Ecopedagogia.

A boa vontade como condição de humanidade diante da lida com os conflitos, a vontade de prosseguir vivendo harmonicamente apesar de toda e qualquer diferença, buscando a convergência dos interesses de todos é o caminho esperançoso a se trilhar.

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